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Venda da SAF do Vasco a Marcos Lamacchia: o que já está acordado e o que falta para fechar

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Tempo de leitura 7 min
Composição gráfica editorial de um aperto de mãos estilizado sobre documentos, simbolizando uma negociação de compra de clube de futebol

O Vasco tem um edital de venda de 90% da sua SAF em vigor desde 15 de julho de 2026, com Marcos Lamacchia definido como investidor âncora e um prazo judicial para fechar a operação até 30 de setembro de 2026. Isso não significa que Lamacchia já é dono do clube: falta a etapa competitiva (na qual outros investidores podem apresentar propostas), a aprovação do Conselho Deliberativo e a homologação judicial final.

Em resumo, o que já está definido é o formato da venda e os números do pré-acordo. O que falta é o rito jurídico e societário que transforma esse pré-acordo em contrato assinado.

Quem é Marcos Lamacchia

Marcos Faria Lamacchia é empresário, filho de José Lamacchia e neto do banqueiro Aloysio de Andrade Faria, fundador do banco Real. Ele comanda a Blue Star, gestora financeira fundada em 2011, e já atuou como diretor da Crefisa — instituição que, coincidentemente, é credora do Vasco em um empréstimo-ponte (DIP) usado durante a recuperação judicial do clube. A empresa usada para a proposta se chama Almirante Participações e Empreendimentos S.A.

Segundo o presidente do Vasco, Pedrinho, Lamacchia é o investidor “em um processo mais adiantado, muito mais adiantado do que todos os outros” entre os grupos que sondaram o clube desde a saída da 777 Partners, no início de 2024.

Como a negociação chegou até aqui

  • Início de 2024 — a 777 Partners deixa o comando da SAF do Vasco em meio à crise financeira do grupo, e o clube entra em processo de recuperação judicial.
  • 10 de junho de 2026 — reportagens detalham como o estatuto do Vasco trata a aprovação de uma venda de controle: o Conselho Deliberativo precisa aprovar por 2/3 dos votos, com pareceres prévios dos Conselhos Fiscal e de Beneméritos, e revelam a “rota de fuga” prevista no próprio estatuto: se o Conselho rejeitar a proposta três vezes seguidas, a diretoria pode levar o tema a uma Assembleia Geral Extraordinária, onde basta maioria simples dos presentes.
  • 15 de julho de 2026 — a 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro publica o edital que autoriza a venda de 90% das ações da nova SAF, define Lamacchia como investidor âncora (stalking horse) e fixa o prazo final de 30 de setembro de 2026.
  • 12 de agosto de 2026 — o advogado André Sica confirma ajustes no contrato (redução da multa de rescisão e reforço de garantias financeiras) e detalha a fiscalização judicial do processo.

O que já está acordado

O pré-acordo, formalizado no edital de julho, prevê a venda de até 90% das ações da SAF por um valor que pode superar R$ 2 bilhões em compromissos ao longo dos próximos anos. Os principais números:

ItemValor previsto
Investimento mínimo totalR$ 650 milhões em 5 anos
Futebol profissionalR$ 500 milhões (5 parcelas anuais de R$ 100 milhões, corrigidas pelo INPC, 2026–2030)
Centro de treinamentoR$ 120 milhões em 10 anos
Infraestrutura das categorias de baseR$ 30 milhões nos 2 primeiros anos
Incentivo fiscal a captar (esportes olímpicos)até R$ 150 milhões
Conversão do empréstimo DIP com a Crefisacerca de R$ 80 milhões
Dívida assumida (ligada à saída da 777/A-CAP)cerca de R$ 1,3 bilhão, com possibilidade de redução para R$ 700–800 milhões após negociação

Além dos valores, o pré-acordo prevê condições societárias importantes:

  • Lock-up de 10 anos — o comprador não pode vender sua participação nem distribuir dividendos durante uma década, reinvestindo o resultado na operação do clube.
  • Assento no conselho da SAF — a associação Vasco da Gama mantém uma cadeira no conselho de administração da nova sociedade, mesmo com participação minoritária.
  • Aquisição da fatia ligada à saída da 777 Partners — o grupo de Lamacchia se compromete a comprar a parcela de cerca de 31% das ações hoje vinculada à disputa com a A-CAP, sucessora da 777 no Brasil.
  • Status de investidor âncora (stalking horse) — como quem chegou primeiro com uma proposta consistente, Lamacchia tem preferência no processo competitivo: se outro investidor oferecer mais, ele pode igualar a proposta. Caso não iguale e perca o negócio, recebe uma compensação de R$ 50 milhões pelo trabalho já realizado.

O que ainda falta para fechar

Mesmo com o edital publicado, a operação só se torna definitiva depois de:

  1. Processo competitivo — o edital abre espaço para que outros investidores apresentem propostas concorrentes antes do fechamento.
  2. Aprovação do Conselho Deliberativo — por 2/3 dos votos, com pareceres prévios dos Conselhos Fiscal e de Beneméritos, conforme os artigos 136 a 138 do estatuto do Vasco. Se o Conselho travar a proposta três vezes, a diretoria pode convocar uma Assembleia Geral Extraordinária, na qual basta maioria simples.
  3. Manifestação do Ministério Público e decisão do juiz da recuperação judicial — etapas formais do processo, já que toda a operação corre sob supervisão judicial.
  4. Passagem pela ANRESF — a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol precisa avaliar a operação sob a ótica do fair play financeiro do futebol brasileiro.
  5. Reorganização societária final e assinatura do contrato definitivo (closing) — só depois de vencidas as etapas acima o negócio é assinado e registrado.

Tudo isso precisa acontecer até 30 de setembro de 2026, prazo fixado no próprio edital judicial. O advogado André Sica já descreveu a operação como “a mais publicizada do Brasil”, citando que até contratações de jogadores do elenco profissional são levadas ao conhecimento da magistrada responsável pelo caso durante o período de recuperação judicial.

Por que essa venda importa para o Vasco

O clube vive sob pressão de caixa: o empréstimo-ponte (DIP) de cerca de R$ 80 milhões usado para cobrir despesas correntes está perto do limite, e a recuperação judicial impõe pagamentos anuais estimados entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões aos credores. Um investidor que assuma parte dessa dívida e aporte capital novo é hoje a via mais concreta para o clube sair do ciclo de recuperação judicial sem repetir o modelo de gestão que terminou com a saída turbulenta da 777 Partners.

É também por isso que o clube trata a questão do fair play financeiro como algo que anda junto com a venda da SAF: um clube em recuperação que não honra compromissos financeiros pode acabar barrado pela ANRESF em janelas de contratação, e vale entender o que é transfer ban e por que ele impede um clube de contratar para dimensionar o risco esportivo de uma reestruturação malfeita.

Perguntas frequentes

Lamacchia já é o dono do Vasco? Não. Ele tem status de investidor âncora com preferência no processo, mas o negócio só se torna definitivo depois do processo competitivo, da aprovação do Conselho Deliberativo (ou da Assembleia Geral, se o Conselho travar) e da homologação judicial.

O que acontece se o prazo de 30 de setembro não for cumprido? As fontes consultadas não detalham uma penalidade automática para o não cumprimento do prazo; ele é o horizonte fixado pelo próprio edital judicial para a conclusão de todas as etapas do processo.

Por que o Vasco precisa vender a SAF logo? Porque o clube está em recuperação judicial, com um empréstimo-ponte perto do limite e pagamentos anuais obrigatórios aos credores. Um investidor com capital novo é o caminho que a diretoria tem hoje para equilibrar as contas sem repetir a experiência com a 777 Partners.

Enquanto essa novela segue, o calendário do futebol brasileiro não espera: vale acompanhar também quando fecha a janela de transferências no Brasil em 2026, já que qualquer mudança de comando na SAF tende a mexer com o planejamento de contratações do clube.